El Último Organito

Postado em Geral em agosto 15, 2009 por Henrique Arnholdt

organito
Esse tango nasceu quando a polícia de Buenos Aires tirou os tocadores de realejo das ruas. Diziam que perturbavam o sossego da burguesia. A letra lembra a chegada de um realejo num arrabalde. Um cavalo magro, um manco e um macaquinho. Procuram um lugar “onde se misturem as luzes da lua e do armazém”. Em suas andanças, o realejo chega à casa da “vizinha morta”, aquela que se “cansou de amar”. E ali mói tangos, para que chore o cego inconsolável. Esse cego é personagem de um poema de Evaristo Carriego, grande poeta argentino.
É uma peça melancólica (é tango) que lastima a desaparição daquele veículo de difusão de música, dizendo que “a alma do subúrbio ficará sem voz”. O realejo foi um grande propagador dos ritmos poderosos do tango, considerado música de “bas fond” pela burguesia.
susana-rinaldi-buenos-airesparis-tapa
Grande intéprete deste tango é Susana Rinaldi, hoje uma senhora de avançada idade mas sempre consciente do ritmo em que andam as emoções.

Não encontrei no YouTube a Rinaldi cantando o “Organito” mas, para quem aprecia um tango, aí vai:

Engenho Santana

Postado em Geral em agosto 14, 2009 por Henrique Arnholdt

engenho_santana

É o nome do bar em que me embriago aos sábados. No meio do caos do Ver-o-Peso, é um oásis de sossego, bom serviço e a melhor isca de peixe de Belém (a R$6,00).

Sábado em Belém

Postado em Viagens em abril 18, 2009 por Henrique Arnholdt

veropeso
Dez e meia da manhã. O sol é inclemente. Mas caminho pelas ruas, já habituado à sujeira por minha vida anterior em Salvador, feliz por estar vivo. Restam à cidade algumas construções antigas. Azulejos novos tentam fingir que são do Século 18, sem sucesso.

Na Praça da República, os hippies já estão vendendo suas criações pouco originais. Os ferros das barracas dos feirantes (vestidos e bermudas chineses, “artesanato” em couro, blangandãs e bijous industriais) esperam na calçada que alguém lhes venha montar.

No sebo da Galeria, descubro que o livro que pretendia comprar tem um “bias” irredutível contra Calabar. É um livro de História do Brasil, publicado pela Biblioteca do Exército, uma compilação de um General da Reserva sobre a ocupação holandesa. Lamento não comprá-lo, pois tem transcrições de relatórios dos comandantes das duas batalhas de Guararapes, tanto de Schoppke, o holandês, quanto do português cujo nome não lembro. Mas a R$ 20,00, fica pra outra vez.

Discos piratas é o que não falta em Belém. Compro (por R$2,00 cada) o “Dom Quixote” do Orson Welles e “A Plein Soleil” do René Cément. Choice titles. Compro também o Windows 7 (a R$5,00), que pretendo testar em “dual boot”. Há dezenas de programas à venda, Adobe, Corel, Microsoft, Mcafee, Norton, you name it. Tudo a preço de banana. Minto, a banana é mais cara.

Chego enfim ao meu boteco perto do Ver o Peso. Azulejos brancos, limpinho, iscas de peixe à milanesa deliciosas por R$6,00 com bastante suco de limão, três Cerpas, muitas músicas tocando na memória. Duas horas depois, estou pronto para voltar ao apartamento. E cá estou, mais um dia na vida.

Jesus, o homem

Postado em Geral em março 14, 2009 por Henrique Arnholdt

jesus_maria
A pintura à esquerda é resultado de uma busca na internet e, infelizmente, não tem atribuição de autor.

É o que se poderia chamar de realismo americano. O filho abraça a mãe, que sorri com um olhar perdido mas confiante. Ele, no entanto, cerra os olhos e a testa na antecipação do horror que o aguarda em seu futuro.

Este homem sabia que a mensagem que pregava só podia levá-lo à morte. Nenhum poder estabelecido pode permitir a propagação das idéias que esse homem pregava.

Não interessa se este homem era divino ou não. É impoderável. E de fato não faz diferença. O Bem não precisa de motivos ou origens. Ou se é bom ou se é mau. Disso não se escapa, haja um deus ou não.

Roma não tardou a perceber que era possível cooptar a ideologia imanente ao discurso de Jesus da Galiléia. Surge Paulo de Tarso, derrubado de seu cavalo por um lampejo, que passa a interpretar a mensagem do Cristo pela ótica fascista e controladora do Império.

Quando a Igreja Católica apodrecia em corrupção, Martinho Lutero tomou a si a tarefa de reinterpretar o apóstolo Paulo e tornar ainda mais totalitária, repressiva e controladora a sua ideologia.

O homem Jesus, aquele que por não poder conter sua indignação acabou crucificado, esse queria só que a gente se amasse uns aos outros como ele nos amou.

Belém outra vez

Postado em Viagens em março 12, 2009 por Henrique Arnholdt

Instituto Histórico e Geográfico do Pará

Instituto Histórico e Geográfico do Pará


Vivi em Belém por pouco mais de 12 meses, 25 anos atrás. Mas o trabalho de então, uma criança nova e outra por nascer não nos davam tempo para explorar a cidade.

Desta vez tenho livre parte das manhãs e tenho caminhado pela cidade e passeado em seus “fresquinhos”, confortáveis vans com ar refrigerado que atravessam a cidade.

Aos sábados, como peixe frito e bebo Cerpinha num bar perto do Ver o Peso, vendo desfilar a população alegre e morena de Belém do Pará.

Minueto

Postado em Poesia em janeiro 27, 2007 por Henrique Arnholdt

Dança da Morte

Cortejar a morte,
dançar com ela
o minueto obscuro,
sentir que o sangue
se adensa,
que o coração impele,
desesperadamente,
o que ainda resta
de vida
aos extremos do corpo.

Cortejar a morte,
trocar com ela
as palavras ocultas,
sentir que a luz
se afasta,
que o espírito tateia,
apaixonadamente,
o que está para lá
da vida,
nas fronteiras do Inferno.

Cortejar a morte,
cantar com ela
a canção do adeus,
sentir que o passado
se apaga,
que o desejo olvida,
preguiçosamente,
o que um dia sonhou
da vida,
para nunca mais.

Cortejar a morte,
descobrir com ela
o sabor do agora,
sentir que o presente
se adoça,
que o corpo empolga,
obstinadamente,
o que há por viver
da vida,
para além do medo.

Espelho

Postado em Poesia em janeiro 20, 2007 por Henrique Arnholdt

espelho.jpg

O entediado espelho deste quarto de hotel
desperta
e reordena suas moléculas para melhor refletir
teu rosto
enquanto te maquias.
Apagam-se de sua memória os milhares de caras
cansadas,
tristes ou solitárias, túmidas ou ressequidas
que ele inverteu
em sua existência bidimensional.
A luz que emana de tua face pousa alegre
em seu mercúrio
e o carmim que aplicas em teus lábios brilha
como o sangue que ruge em minhas veias.
Só mesmo o espelho pode duplicar tua beleza
única,
a singularidade angelical de tua pele,
a tua boca,
o tom lacustre de teus olhos.
Jamais se evolarão do plano desse espelho
os contornos
perfeitos de teu rosto, as aletas de teu nariz,
os caracóis tímidos de tuas orelhas de alabastro.
Quando partir-se esse espelho, pelo tempo ou pelo azar,
tua imagem
permanecerá no recôndito de seus átomos,
pura energia maravilhando o Cosmo.

Chuva

Postado em Poesia em janeiro 20, 2007 por Henrique Arnholdt

Chuva

Olhando correr a chuva,
até onde a memória alcança?
“Ivo viu a uva.”
Volta-se a ser criança…

Lobo

Postado em Poesia em janeiro 11, 2007 por Henrique Arnholdt

Lobo

O lobo vai e mija o perímetro de seu território.
No pasarán!
Ali o bicho achou o seu pedaço.
Ali ele come, dorme e vive.
E deixa viver, para que haja comida amanhã.

Gostou da paisagem, talvez.
Da temperatura, da luz, da atmosfera.
Em suas patrulhas, sentiu-se em casa.
Um focinho e quatro patas,
vai trotando entre a floresta.

De lua em lua, ele uiva.
Alguém há de escutá-lo.
Um macho para a briga.
Uma fêmea para o amor.

Deitado na entrada de sua caverna,
o lobo se encanta com o resplendor da noite.
E por um instante ele deixa de ser só,
para ser, de novo, um com tudo.

Feliz 2007

Postado em Poesia em dezembro 24, 2006 por Henrique Arnholdt

Embriagai-vos

Velásquez - Baco

É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas – de quê? De vinho, de poesia ou de virtude,
como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes,
nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes,
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge,
a tudo o que geme,
a tudo o que rola,
a tudo o que canta,
a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

Charles Baudelaire