Passei dois anos sem postar nada neste blog. Que vergonha! Mas agora estou em Porto Alegre, onde pretendo ficar por muito tempo. Quem sabe aqui vou ter mais vagar para publicar alguma coisa.
Passei dois anos sem postar nada neste blog. Que vergonha! Mas agora estou em Porto Alegre, onde pretendo ficar por muito tempo. Quem sabe aqui vou ter mais vagar para publicar alguma coisa.

É o nome do bar em que me embriago aos sábados. No meio do caos do Ver-o-Peso, é um oásis de sossego, bom serviço e a melhor isca de peixe de Belém (a R$6,00).

Dez e meia da manhã. O sol é inclemente. Mas caminho pelas ruas, já habituado à sujeira por minha vida anterior em Salvador, feliz por estar vivo. Restam à cidade algumas construções antigas. Azulejos novos tentam fingir que são do Século 18, sem sucesso.
Na Praça da República, os hippies já estão vendendo suas criações pouco originais. Os ferros das barracas dos feirantes (vestidos e bermudas chineses, “artesanato” em couro, balangandãs e bijous industriais) esperam na calçada que alguém lhes venha montar.
No sebo da Galeria, descubro que o livro que pretendia comprar tem um “bias” irredutível contra Calabar. É um livro de História do Brasil, publicado pela Biblioteca do Exército, uma compilação de um General da Reserva sobre a ocupação holandesa. Lamento não comprá-lo, pois tem transcrições de relatórios dos comandantes das duas batalhas de Guararapes, tanto de Schoppke, o holandês, quanto do português cujo nome não lembro. Mas a R$ 20,00, fica pra outra vez.
Discos piratas é o que não falta em Belém. Compro (por R$2,00 cada) o “Dom Quixote” do Orson Welles e “A Plein Soleil” do René Clèment. Choice titles. Compro também o Windows 7 (a R$5,00), que pretendo testar em “dual boot”. Há dezenas de programas à venda, Adobe, Corel, Microsoft, Mcafee, Norton, you name it. Tudo a preço de banana. Minto, a banana é mais cara.
Chego enfim ao meu boteco perto do Ver o Peso. Azulejos brancos, limpinho, iscas de peixe à milanesa deliciosas por R$6,00 com bastante suco de limão, três Cerpas, muitas músicas tocando na memória. Duas horas depois, estou pronto para voltar ao apartamento. E cá estou, mais um dia na vida.
Desta vez tenho livre parte das manhãs e tenho caminhado pela cidade e passeado em seus “fresquinhos”, confortáveis vans com ar refrigerado que atravessam a cidade.
Aos sábados, como peixe frito e bebo Cerpinha num bar perto do Ver o Peso, vendo desfilar a população alegre e morena de Belém do Pará.
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Cortejar a morte, dançar com ela o minueto obscuro, sentir que o sangue se adensa, que o coração impele, desesperadamente, o que ainda resta de vida aos extremos do corpo. Cortejar a morte, |
Cortejar a morte, cantar com ela a canção do adeus, sentir que o passado se apaga, que o desejo olvida, preguiçosamente, o que um dia sonhou da vida, para nunca mais. Cortejar a morte, |

O entediado espelho deste quarto de hotel
desperta
e reordena suas moléculas para melhor refletir
teu rosto
enquanto te maquias.
Apagam-se de sua memória os milhares de caras
cansadas,
tristes ou solitárias, túmidas ou ressequidas
que ele inverteu
em sua existência bidimensional.
A luz que emana de tua face pousa alegre
em seu mercúrio
e o carmim que aplicas em teus lábios brilha
como o sangue que ruge em minhas veias.
Só mesmo o espelho pode duplicar tua beleza
única,
a singularidade angelical de tua pele,
a tua boca,
o tom lacustre de teus olhos.
Jamais se evolarão do plano desse espelho
os contornos
perfeitos de teu rosto, as aletas de teu nariz,
os caracóis tímidos de tuas orelhas de alabastro.
Quando partir-se esse espelho, pelo tempo ou pelo azar,
tua imagem
permanecerá no recôndito de seus átomos,
pura energia maravilhando o Cosmo.

O lobo vai e mija o perímetro de seu território.
No pasarán!
Ali o bicho achou o seu pedaço.
Ali ele come, dorme e vive.
E deixa viver, para que haja comida amanhã.
Gostou da paisagem, talvez.
Da temperatura, da luz, da atmosfera.
Em suas patrulhas, sentiu-se em casa.
Um focinho e quatro patas,
vai trotando entre a floresta.
De lua em lua, ele uiva.
Alguém há de escutá-lo.
Um macho para a briga.
Uma fêmea para o amor.
Deitado na entrada de sua caverna,
o lobo se encanta com o resplendor da noite.
E por um instante ele deixa de ser só,
para ser, de novo, um com tudo.

É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas – de quê? De vinho, de poesia ou de virtude,
como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes,
nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes,
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge,
a tudo o que geme,
a tudo o que rola,
a tudo o que canta,
a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Charles Baudelaire