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Cortejar a morte, dançar com ela o minueto obscuro, sentir que o sangue se adensa, que o coração impele, desesperadamente, o que ainda resta de vida aos extremos do corpo. Cortejar a morte, |
Cortejar a morte, cantar com ela a canção do adeus, sentir que o passado se apaga, que o desejo olvida, preguiçosamente, o que um dia sonhou da vida, para nunca mais. Cortejar a morte, |
Janeiro 27, 2007
Janeiro 20, 2007

O entediado espelho deste quarto de hotel
desperta
e reordena suas moléculas para melhor refletir
teu rosto
enquanto te maquias.
Apagam-se de sua memória os milhares de caras
cansadas,
tristes ou solitárias, túmidas ou ressequidas
que ele inverteu
em sua existência bidimensional.
A luz que emana de tua face pousa alegre
em seu mercúrio
e o carmim que aplicas em teus lábios brilha
como o sangue que ruge em minhas veias.
Só mesmo o espelho pode duplicar tua beleza
única,
a singularidade angelical de tua pele,
a tua boca,
o tom lacustre de teus olhos.
Jamais se evolarão do plano desse espelho
os contornos
perfeitos de teu rosto, as aletas de teu nariz,
os caracóis tímidos de tuas orelhas de alabastro.
Quando partir-se esse espelho, pelo tempo ou pelo azar,
tua imagem
permanecerá no recôndito de seus átomos,
pura energia maravilhando o Cosmo.
Janeiro 20, 2007
Janeiro 11, 2007

O lobo vai e mija o perímetro de seu território.
No pasarán!
Ali o bicho achou o seu pedaço.
Ali ele come, dorme e vive.
E deixa viver, para que haja comida amanhã.
Gostou da paisagem, talvez.
Da temperatura, da luz, da atmosfera.
Em suas patrulhas, sentiu-se em casa.
Um focinho e quatro patas,
vai trotando entre a floresta.
De lua em lua, ele uiva.
Alguém há de escutá-lo.
Um macho para a briga.
Uma fêmea para o amor.
Deitado na entrada de sua caverna,
o lobo se encanta com o resplendor da noite.
E por um instante ele deixa de ser só,
para ser, de novo, um com tudo.
Dezembro 24, 2006
Embriagai-vos

É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas - de quê? De vinho, de poesia ou de virtude,
como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes,
nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes,
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge,
a tudo o que geme,
a tudo o que rola,
a tudo o que canta,
a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Charles Baudelaire

